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“viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.”Clarice Lispector – O Ovo e a Galinha
Um dia acordou, assim como se acorda em qualquer dia, e aconteceu. Como explicar, se também era manhã fria prometendo sol mais tarde, o sono ainda passeando pelo corpo e entorpecendo as idéias (talvez o motivo): nada tinha explicação.Como sentir a gravidade dessa grave conclusão? Sentia mesmo uma vontade irresistível de ironia, e não conseguia dar a gargalhada escondida – a moral e os bons costumes latejando dentro de um coração ainda não auto-titulado, nunca despretensiosamente, anti-cristão.Ah, e estava feliz. Inexplicavelmente feliz. Como um boêmio ao descobrir-se embriagado com a luz. E não ria. O semblante era grave, de cera de exposição de museu. Ele, peça típica da espécie humana, própria para em sua imobilidade de escultura dizer: eu não sei, como explicar?Oras, se não tinha explicação… talvez um resquício de sonho. Talvez o começo da mais honesta (e dura) vigília. E de repente sentiu pesado demais o fardo: haveria de inexplicar o mundo. Mas como? Ele já estava tão explicado… ou não estava?Ao menos poderia ser o primeiro, mas riu (agora sim, conseguindo aliviar algo dentro), certo de que não passava de uma peça. Assim, bem clichê mesmo, mais uma da engrenagem. E a peça que se banca de entendida (ou desentendida, vai saber – porque depois daquela manhã tudo isso de jogos de palavras era mais que possível, era cabível), ela mesma, não passa de uma peça, no máximo com status de peça grande, essencial, importantíssima, mas peça. Ah, nem original poderia ser. Mas poderia de repente sentir-se vivo. Como há tempos, talvez como quase nunca. E toda a falta de explicação vinha como um presente, uma revelação às avessas, que se esforçasse por revelar, vai ver que só diria: ah… e nem diria, sorriria, em seu sorriso meio encanto meio sarcástico – sorriso de bruxa.E enfim uma manhã fez sentido. Prometendo mais que um sol a pino. Mais que uma tarde melancólica. Sentiu-se mais dentro, mais (pasme!) próximo dos outros, próximo de tudo. Uma satisfação em não saber, uma tranqüilidade em não entender. Nada! Agora, agora era o quê?, agora era isso. Era isso? Inexplicavelmente, como em outra situação caberia muito bem o “naturalmente” no começo dessa sentença, inexplicavelmente caberia a ele isso: viver.
